03/Ago/2007
A crise aérea e a ética na informação

João Paulo Cunha

A espetacularização e a politização do acidente com o vôo 3054 da TAM, que consternou o país com a morte de 199 brasileiros, em nada contribuem para solucionarmos a crise no setor aéreo nacional. Devemos render homenagens às vítimas e confortar os familiares dando-lhes força e coragem para seguir em frente. No entanto, aqueles que na mídia e nos partidos da oposição buscam usar a tragédia para fazer disputa eleitoral antecipada, agem levianamente, sem ética política, desrespeitando a dor da nação.

Por que tanto empenho de setores da mídia objetivando culpar o governo federal e estimular uma oposição à gestão? Não estaria faltando bom senso e sobrando interesses inconfessáveis na cobertura jornalística? O foco inicial da cobertura em possíveis problemas envolvendo a pista do aeroporto de Congonhas revelava claramente o interesse em atingir a imagem do governo Lula.

Apenas depois que foram disponibilizadas as imagens do pouso em alta velocidade e comprovado um problema no reverso do avião, a mídia deu conta que existiam outras hipóteses determinantes para o acidente. Agora, com a divulgação das primeiras informações da caixa–preta, tudo indica que houve falha humana na operação da alavanca de aceleração das turbinas, aliada à problemas nos equipamentos do Airbus.

Comprova-se assim que ocorreu uma tentativa antiética de culpar antecipadamente o governo federal pelo acidente. Uma cobertura jornalística alicerçada na verdade dos fatos, baseada na razão e prudência não poderia ficar apontando culpados, momentos após o acidente sem as informações da caixa-preta. Como se sabe por outras tragédias aéreas, geralmente temos nestes casos muitas causas em jogo envolvendo a manutenção do avião, o funcionamento do sistema de segurança de vôo e a conduta dos pilotos, agora questionada.

Neste caso, assistimos mais uma vez a mídia manifestar uma suposta competência tecno-científica através de um discurso ideológico que se pretende o único e verdadeiro criador da realidade. Setores da grande imprensa, a partir de uma posição de onipotência, tentaram substituir a realidade dos fatos por uma versão fabricada, expressa de maneira espetacular na tela da TV e repercutida à exaustão nos jornais e revistas do país.

Não se trata de eximir o Governo Federal de suas responsabilidades para com o adequado funcionamento do sistema aéreo, nem de blindá-lo por suas limitações no enfrentamento da crise. O Governo não pode ficar “batendo cabeça” nos encaminhamentos das soluções e deve restabelecer o comando político no setor. O que a situação exige são respostas concretas e satisfatórias que qualifiquem o serviço prestado. Neste sentido, é importante conduzir com seriedade e racionalidade uma completa apuração das causas do acidente, considerando todos os fatores conjugados, incluindo a responsabilidade das empresas na supervisão e manutenção dos aviões.

A sociedade espera da imprensa e dos políticos que tratem a questão com dignidade, não usando a tragédia para fazer proselitismo e politicagem. Devemos, isso sim, somar esforços, avaliações e propostas para resolver o problema que se manifesta nos enormes contratempos vividos pelos brasileiros nos aeroportos. A troca de comando no mistério da defesa é uma resposta afirmativa para a resolução das questões administrativas, técnicas e políticas da crise.

É inadmissível numa democracia, a montagem teatral de fatos, a partir de uma cobertura jornalística que nem sequer busca esconder uma posição política de confronto e desgaste da figura do presidente e do PT. Tanto é assim que de maneira tendenciosa a mídia estabeleceu para a crise aérea uma cronologia a partir do acidente da GOL, em setembro de 2006, omitindo décadas de descaso e abandono da infra-estrutura aéreo-portuário do país.

Por que não se compara o que foi realizado nesta área pelo governo Lula e outros governos? Na certa é porque a comparação seria amplamente desfavorável à gestão de FHC e governos anteriores que pouco fizeram para evitar a atual situação. As críticas a ANAC, muitas das quais corretas, foram feitas invariavelmente sem deixar claro que este modelo de funcionamento das agências reguladoras foi criado na gestão anterior.

Reduzir o tráfego em Congonhas é uma necessidade imediata que deve se somar a outras ações de maior impacto para solucionar os gargalos do sistema aéreo que nos últimos anos, a partir do crescimento econômico do país e de uma maior distribuição da renda, assistiu a um aumento substancial na quantidade de usuários. Reformas e ampliações devem ocorrer em todos os principais aeroportos do país, ao mesmo tempo em que se investe na formação de novos controladores de vôo, desmilitarizando e qualificando o serviço para atender a crescente demanda.

Deste episódio dramático ficará também a lição de que a sociedade precisa ter acesso a outras caixas-pretas que explicariam as razões dos ataques e preconceitos destilados na grande imprensa nacional contra o PT e o Presidente Lula, desconsiderando a grande contribuição que o partido tem dado para o avanço e consolidação da democracia brasileira e os bons resultados na condução do governo e da economia nacional.


João Paulo Cunha
Deputado federal PT-SP