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quarta, 17 de março de 2010
05/Out/2009
Olimpíada Carioca Imprimir E-mail

João Paulo Cunha

Copenhague não leva o menor jeito para campo de batalha. Está mais para a cidade ideal dos contos de fadas, para os melhores sonhos sobre o destino da humanidade. É o lugar das sereias e do existencialismo cristão de Søren Kierkegaard. Lá, nenhum judeu foi entregue às hordas nazistas. Quando foi invadida por Hitler, seu governo agonizante conseguiu embarcar todos os seus judeus para a neutra Suécia.

Apesar destas credenciais foi lá que se travou a batalha para sediar as Olimpíadas de 2016, opondo o Rio de Janeiro a Chicago, Madrid e Tóquio. Ninguém fugiu à luta. O Brasil estava representado pelo presidente Lula, por Pelé, Paulo Coelho e vários atletas laureados, enquanto os Estados Unidos levaram o presidente Barak Obama e uma numerosa equipe de renomados atletas. O mesmo fizeram a Espanha, representada pelo rei Juan Carlos e pelo chefe do governo, José Luiz Zapateiro, e o Japão, com seu primeiro-ministro recém eleito Yukio Hatoyama; nos dois casos, com uma legião de atletas laureados.

Mas esta batalha que se travou sem sangue, onde os contendores usaram como arma apenas o charme de cada uma de suas cidades, foi acompanhada por mais de um bilhão de telespectadores espalhados pelo mundo.

A Escandinávia tem a ver com nossas glórias esportivas. Foi na Suécia que o Brasil conquistou, há mais de meio século, sua primeira Copa do Mundo de futebol. Ruy Castro descreveu desta forma um dos primeiros momentos do triunfo canarinho: “O rei Gustavo Augusto VI foi ao gramado cumprimentar os jogadores brasileiros, sem saber onde estava se metendo. Apertou as mãos suadas e enlameadas dos campeões e, na barafunda, os dirigentes entraram na fila para o cumprimento real. Quando se deu conta, o rei estava sendo puxado pela manga do paletó pelo sorridente Mário Trigo (ropeiro da seleção): ‘Vem cá, king! Vem cumprimentar o nosso chief!”

Trigo referia-se a Paulo Machado de Carvalho, que Gustavo Augusto saltara na confusão. O próprio Gustavo Augusto ria da sem-cerimônia. Nunca um rei descera tanto no protocolo – nem se submetera tão gostosamente a isso.”

A vitória do Rio em Copenhague esteve mais dentro das normas do cerimonial, afinal estávamos na presença não apenas de um, mas de diversos chefes de Estado. Ela parece que foi antecipada por Guimarães Rosa em relato datado de 1947, quando descreveu uma viagem de um grupo de colibris de Pernambuco até Copenhague.

Primeiro ele falou do jeito dos colibris: “Variavam, verde e azul predominando. Também, umas mais alegres...Mas principalmente, cores de metal...” Sabia que não é fácil, eles tem de tudo: limão romã, berinjela; “Bordeaux”, absinto groselha; malaquita, atacamita, azurita; e mais todo o colorido universo, em tal. Depois mudam com a luz, bruxos pretos, uns sacis de perespertos, voltiginosos, elétricos, com valores instantâneos....”

Depois Guimarães Rosa descreve o desembarque glorioso em Copenhague dos onze colibris que sobreviveram à travessia: “Soaram palmas, ao surgirem as gaiolas. Herr Diréktor Reventlow adiantou-se. Viu o colibrizinho já morto, precipitou-se, pegou-o e o pôs no bolso, a ver se o calor do corpo ainda podia salvá-lo. Aí, então, proferiu suas palavras de agradecimento a Ludvigsen, a Jensen, à companhia, ao Brasil, a Deus e aos próprios colibris, a dádiva feérica. Ludvigsen também falou. Discursos curtos, sem tenórios tons, nem fermatas, nem tremulantes vogais. A rádio é que bradava, repetidas vezes, ondas curtas e longas: Koebenhavn taler! Her Kommer kolibrier fra Brsilien.

Queremos crer que Guimarães Rosa usou as cores e os movimentos mágicos dos colibris para traduzir a capacidade brasileira de encantar. Mas estamos certos de que a vitória em Copenhague foi fruto do esforço sistemático e persistente das três esferas do governo para criar a oportunidade para que o Rio de Janeiro encante o mundo em 2016.

João Paulo Cunha , deputado federal (PT-SP), é vice-líder do partido na Câmara Federal, da qual foi presidente, entre 2003/04.

Artigo publicado no jornal Diário da Região (Osasco), no sábado, 03 de outubro de 2009.

Comentários
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Nubia M. B. Hassegawa  - Parabéns! 14:16:02 22-10-2009
A Matéria OLIMPÍADA CARIOCA, ficou perfeita. Concordo quando Vossa Senhoria diz, que o povo brasileiro, tem capacidade para encantar o mundo....E, que a vitória em Copenhague foi fruto do esforço persistente das 3 esferas do governo.
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