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domingo, 04 de janeiro de 2009
06/Ago/2008
Lá vem a quarta frota Imprimir E-mail

Frei Betto

No dia 12 de julho os EUA decidiram reativar sua IV Frota Naval – a que vigia os mares do Sul -,  atuante  entre 1943 e 1950, em decorrência da Segunda Guerra, e desde  então desativada. Compõem a frota 22 navios: quatro cruzadores com  mísseis; quatro destróieres  com mísseis; 13 fragatas com mísseis; e um navio-hospital.
 
Segundo as autoridades usamericanas, o  objetivo é  “realizar ações humanitárias”. Então, para que tantos  mísseis? E, nesse  intuito, por que não começar por permitir que Porto  Rico recupere a sua  soberania, suspender o bloqueio a Cuba, devolver a  base naval de Guantánamo  (retirando os prisioneiros de lá e do limbo jurídico a que estão condenados) e  reduzir os subsídios agrícolas que  estrangulam o livre comércio? 
 
Segundo o almirante Gary  Roughead, chefe das operações navais, a  IV Frota visa a combater o  tráfico de drogas, de armas e de pessoas, bem como  a pirataria que  ameaça o fluxo do livre comércio nos mares do Caribe e da América do  Sul.
 
Não seria mais sensato começar por combater o tráfico de drogas e armas dentro dos EUA que, segundo relatório da ONU   divulgado em junho, figuram entre os maiores consumidores desses dois  produtos  letais?
 
É a velha história do lobo mau  pretendendo enganar o chapeuzinho vermelho. Quem acredita que nariz  tão grande é apenas para cheirar  a netinha? Não é muita “coincidência”  a IV Frota ser reativada no momento em  que Cuba aprimora sua opção  socialista, Daniel Ortega volta a presidir a  Nicarágua, o Brasil  descobre reservas petrolíferas sob a camada pré-sal, e a  América do Sul se vê governada por pessoas como Chávez, Lula, Correa,  Kirchner,  Morales e, em breve, Lugo, que não morrem de amores pelo Tio Sam e  se  empenham em reduzir a dependência de seus países em relação aos EUA?   
 
O comandante da IV Frota é o contra-almirante  Joseph  Kernan, de 53 anos. Não fez carreira na Marinha convencional, e  sim na força  de elite (SEAL) destinada a operações especiais de  combates não-convencionais  e repressão ao terrorismo. Muito  humanitário...
 
Os EUA sentem-se  incomodados com a atual  conjuntura latino-americana. Em especial, com o fato  de o presidente  Lula empenhar-se na criação da UNASUL (União das Nações   Sul-Americanas) e do Conselho Sul-Americano de Defesa (agora apoiado  até pela  Colômbia), dois organismos que, como o Mercosul e a Alba,  excluem a  participação dos EUA e tornam inócuos o Tratado  Interamericano de Assistência  Recíproca e a Junta Interamericana de  Defesa, que sempre estiveram sob  controle da Casa  Branca.
 
A exemplo da União Européia, a UNASUL  integrará o  Mercosul e a Comunidade Andina de Nações, incluindo a Guiana e o   Suriname. A integração completa desses dois blocos foi formalizada em  Brasília  em maio deste ano, durante reunião dos presidentes  sul-americanos. A UNASUL  ficará sediada em Quito; seu Banco do Sul, em  Caracas; e o parlamento em  Cochabamba, na Bolívia.  
 
Ainda por trás da fantasia de  vovozinha, Tio Sam  quer impedir que a China tome conta dos mares do Sul. Hoje,  90% do  comércio mundial depende de navios, e Pequim se empenha em ampliar e proteger suas rotas, incluindo as que conduzem ao nosso Continente.
 
O governo brasileiro já manifestou sua desconfiança à  Casa  Branca. As recentes descobertas de petróleo nas costas  brasileiras, no momento  em que o barril passou dos US$ 140, com certeza  suscitam a cobiça dos EUA,  cujos fornecedores, como a Venezuela, não  são confiáveis.
 
Com  tantas embarcações de alta  tecnologia e poder de fogo em nossos mares, os  usamericanos poderão  pesquisar a plataforma submarina e controlar a navegação  de nossos  países rumo à África e à Ásia.
 
Ensina a zoologia que  todo  animal acuado se defende com ferocidade. É o caso de Tio Sam, cuja moeda   perde poder de compra, a economia mergulha numa crise de longo prazo,  o  atoleiro no Iraque não mostra nenhuma luz no fim do túnel, e os  brancos  republicanos se vêem na iminência de transferir o poder para  um negro  democrata.
 
Frei Betto é escritor, autor  de “A arte de  semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.
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