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terça, 06 de janeiro de 2009
25/Jun/2008
Imprensa brasileira: da censura ao shownarlismo Imprimir E-mail

João Paulo Cunha

Poucos lembraram, mas a imprensa brasileira completou 200 anos no dia 1º de junho. Em meio a uma revolução tecnológica, onde a prima-dona continua sendo a internet e seus desdobramentos, a imprensa percorre uma trilha dicotômica. De um lado é vítima, tendo sua liberdade castrada, seus profissionais perseguidos, torturados e muitas vezes mortos. De outro manipula e condena, como na caso Escola Base, tornando-se algoz.

 
De acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras, em 2007 pelo menos 86 jornalistas foram mortos por causa de seu trabalho em todo o mundo. Outros 67 foram seqüestrados, 887 foram presos, 1.511 foram atacados ou ameaçados fisicamente e 528 empresas de comunicação foram censuradas.
 
Há poucos dias, o jornal O Dia, do Rio de Janeiro, revelou que em 14 de maio uma repórter, um fotógrafo e um motorista do periódico foram seqüestrados e torturados durante sete horas por uma milícia da Favela Batan. A equipe fazia uma reportagem sobre as comunidades controladas por milicianos. O fato acontece justamente na semana em que a brutal morte do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, completou seis anos.
 
Isto é censura. Ao torturar ou matar um jornalista por causa de seu trabalho, desfecha-se um violento golpe contra a democracia e a liberdade de expressão, dois pilares da sociedade. Estes pilares também são abalados quando governos ou empresas tentam censurar um veículo de comunicação. Durante a Ditadura Militar foram muitos os casos no Brasil, inclusive com a presença de sensores nas redações. Hoje, atos como estes acontecem veladamente. Nos EUA, o “berço da democracia”, Katie Couric, a principal âncora da rede de televisão CBS, admitiu ter sido pressionada a justificar a guerra contra o Iraque nas semanas que antecederam a invasão.
 
Até agora, ela foi a mais importante jornalista a endossar as afirmações de Scott McClellan, ex-secretario de imprensa no governo Bush. McClellan revelou que a imprensa norte-americana foi duramente pressionada pelo presidente, que não queria questionamentos sobre a invasão do Iraque.
 
Nem a violência nem os poderes econômico e político têm o direito de calar a imprensa. Conforme o sociólogo espanhol Ignácio Ramonet, diretor do jornal Le Monde Diplomatique e fundador da Media Watch Global, “a população precisa defender o direito de ser bem informada, uma vez que a qualidade da informação depende da qualidade da democracia.”
 
E para que tenhamos uma sociedade realmente democrática, onde a informação flua de forma livre, correta e responsável, precisamos aperfeiçoar cada vez mais nossas instituições. Entre elas os próprios meios de comunicação. Jornalistas e empresas do ramo precisam ser responsáveis, entendendo o papel que desempenham. Se não podemos admitir a censura, também não queremos a repetição de casos como a Escola Base, onde pessoas e reputações foram condenadas e destruídas pela imprensa.
 
O Grupo Folha recentemente foi condenado a indenizar em R$ 200 mil um dos envolvidos neste caso, que aconteceu há 14 anos. Na época, ele foi apontado pelo jornal como vítima de abuso sexual dos próprios pais, um dos casais acusados sem provas. “Com uma manchete sensacionalista, o jornal extrapolou a liberdade de informar e não resguardou sequer a honra moral de uma criança de quatro anos”, disse o Tribunal de Justiça de São Paulo ao condenar o Grupo Folha.
 
Este ano, o assassinato da pequena Isabella Nardoni ocupou os noticiários durante semanas. A imprensa cumpriu a função de informar, mas também transformou o caso num espetáculo, ao estilo do “shownarlismo”. Ramonet faz uma advertência sobre este comportamento, afirmando que as empresas de comunicação não se preocupam com a qualidade do que publicam. “O que mais interessa é a rentabilidade da empresa. Por isso, dão prioridade à informação-espetáculo. O que importa é um maior número de pessoas consumindo essa informação-lixo. Hoje em dia, o negócio noticioso não consiste em vender novidades aos cidadãos, mas vender cidadãos aos anunciantes”, comenta o sociólogo.
 
Acredito que esta dicotomia vivida pela imprensa será solucionada com o amadurecimento da democracia. Quanto mais informadas e críticas forem as pessoas, menos espaço haverá para a censura ou a “notícia-lixo”. Mas este é um processo continuo, que precisa da participação popular e de pesados investimentos na educação.

 

João Paulo Cunha (PT-SP) é deputado federal.

Artigo publicado no jornal Diário da Região (Osasco - SP) na quarta-feira, 25 de junho de 2008.

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