Menu Content/Inhalt
largersmallerreset
Início arrow Artigos arrow Osasco 1968: história de um movimento
terça, 06 de janeiro de 2009
09/Jun/2008
Osasco 1968: história de um movimento Imprimir E-mail

Roque Aparecido da Silva

Quarenta anos se passaram e 1968 continua sempre presente em Osasco, que foi palco de uma das mais significativas e controversas experiências do movimento operário e sindical do Brasil. A maioria das lideranças da greve dos Metalúrgicos de Osasco, realizada em julho de 1968, convive ainda nos mesmos espaços, compartilhando dos mesmos ideais de emancipação dos trabalhadores, liberdade e justiça social. É interessante observar também que, com o passar do tempo, as diferentes visões sobre o desenrolar do movimento e a deflagração da greve são cada vez menores. Todos reconhecem a relevância histórica daquele movimento e se orgulham de terem sido atores daquela experiência, que deixou marcas significativas no sindicalismo brasileiro.

 
Independente de qualquer divergência quanto à interpretação do movimento, a relação entre todos é de respeito e de satisfação de estarem juntos nas várias oportunidades que se encontram. Esta atitude de solidariedade e camaradagem prevaleceu durante toda a experiência, mesmo quando assumiam posições opostas sobre algumas questões, manifestadas abertamente em reuniões fechadas e inclusive em assembléias. Uma manifestação importante do respeito às decisões democráticas e do espírito de solidariedade foi a atitude da diretoria em apoio a José Ibrahim que era ameaçado de ter cassado seu mandato de presidente do Sindicato. A prática democrática que norteou o movimento seguramente foi um fator determinante na construção desta relação fraternal, que se manifesta até hoje.
 
A dinâmica do movimento social que se desenvolveu em Osasco, que teve seu auge em 1968, com a greve dos metalúrgicos, foi dada pela relação entre dois grupos hegemônicos em diferentes momentos do seu desenvolvimento. Trata-se da Frente Nacional do Trabalho (FNT) que, entre tantos, teve o mérito de liderar a construção da Comissão de Fábrica da Cobrasma, a maior empresa metalúrgica da região na época, e o “Grupo de Esquerda”, composto principalmente por jovens, muitos dos quais trabalhavam durante o dia nas fábricas e estudavam o curso secundário à noite. Suas principais lideranças, em 1968, já estavam integrados à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que fez contestação armada à Ditadura Militar.
 
A visão dos grupos sobre o papel do Movimento Operário e Sindical, naquela conjuntura, tinha muitos elementos em comum, como a necessidade de democratização do movimento sindical organizando os trabalhadores pela base a partir das empresas através das Comissões de Fábrica, rompendo com o burocratismo sindical e sua ligação ao Estado, conquistando a autonomia nas ações. Também os unificava a luta contra o “arrocho salarial”, contra o autoritarismo e a repressão, por liberdades democráticas e justiça social. Pode-se dizer que, mesmo vindo de referências diferentes, ao longo da experiência, se consolidou entre os dois grupos uma concepção de sindicato e de política sindical unificada. A convivência e a participação nas mesmas lutas nas fábricas e no sindicato construíram uma relação de camaradagem entre as lideranças que, após 40 anos, está mais viva que nunca.
 
As profundas diferenças entre os dois grupos decorriam de suas visões políticas em um plano mais amplo. A FNT mantinha-se fiel aos princípios de organizar e conscientizar os trabalhadores para lutarem por seus direitos. O “Grupo de Esquerda” tinha como objetivo central contribuir para que se desencadeasse um movimento social de contestação da ditadura, contemplando as mais diferentes formas de luta. Visões políticas tão diferentes se chocavam quando se tratava de conduzir lutas concretas. O “Grupo de Esquerda” sempre propunha formas mais radicais. Pode-se dizer que, no fundamental, as divergências se colocavam mais em relação às formas de luta e no enfrentamento com patrões e a ditadura militar, que eram os inimigos de classe. O importante é que essas divergências sempre foram resolvidas de forma democrática, com respeito mútuo.
 
 
OS ANTECEDENTES DA GREVE
 
As explosões sociais de 1968 revelaram particularidades em diversos setores sociais, várias delas analisadas neste número especial da Teoria e Debate. Foi uma chama que se espalhou por todo o mundo. Ao analisarmos mais profundamente essas experiências percebemos que cada uma teve uma longa história, com objetivos e demandas diferenciadas. No mundo inteiro, entretanto, o motor da explosão foi a busca da LIBERDADE.
 
Em Osasco não foi diferente. O movimento que teve como desfecho a greve dos metalúrgicos de 68 começou a ser gestado nos anos 50, na luta pela emancipação de Osasco, que era um bairro de São Paulo. Esse processo culminou na eleição do primeiro prefeito, em 1962.
 
Da luta pela emancipação da cidade participaram empresários, comerciantes, associação de bairro, estudantes e operários, dirigentes da subsede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, trabalhadores liderados pela FNT e de outras correntes políticas. Como conseqüência da emancipação, o que era subsede, em julho de 1963 conquista sua autonomia, tornando-se o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco.
 
O movimento emancipacionista, tanto da cidade como do sindicato, construiu a identidade do cidadão osasquense, que teve um papel importante na condução do movimento operário. Neste momento, além da identidade de classe, desenvolveu-se a identidade com a cidade em que viviam.
 
A FNT, com sua concepção de organização do movimento operário pela base, se contrapõe às concepções predominantes no sindicalismo pré-64, denominadas de “pelegas” e “cupulistas” por não ouvirem e respeitarem as opiniões das bases. Enquanto organização para-sindical, que se propunha a organizar e conscientizar os trabalhadores para defenderem seus direitos, a FNT aglutinou grande número de trabalhadores da Cobrasma e de várias outras empresas importantes. Já em 1962 conseguiu a oficialização da “Comissão dos 11” como interlocutora dos trabalhadores da Cobrasma junto à direção da empresa. Essa comissão conquistou a confiança dos trabalhadores da fábrica.
 
Nos primeiros anos a FNT manteve a hegemonia na comissão que, desde o primeiro momento, além de seu reconhecimento, obteve outras conquistas, contando com o apoio de integrantes do “Grupo de Esquerda”. A ampliação da representatividade da comissão foi fruto desse trabalho conjunto, que resultou na conquista de uma “Comissão de Fábrica” com estatuto aprovado pelos trabalhadores, direção da empresa que foi dividida em 18 setores. Os trabalhadores passaram a eleger diretamente um representante e um suplente para compor a Comissão. Em 1965 realizou-se a primeira eleição nos 18 setores. Os representantes foram eleitos e reconhecidos pela empresa.
 
Em 1966, na segunda eleição, ocorreu uma mudança entre os principais líderes da comissão, que teve um significado importante no desenrolar do movimento. A FNT perdeu sua hegemonia, mesmo permanecendo como força fundamental no desenvolvimento do trabalho na empresa. Nesse pleito foram eleitos José Ibrahim para Presidente da Comissão e Roque Aparecido da Silva para Secretário, ambos do “Grupo de Esquerda”. Estes eram os cargos mais importantes.
 
 
A ORGANIZAÇÃO DE BASE
 
O grande princípio que unia e orientava o conjunto das lideranças do movimento era o fortalecimento das organizações por empresa, buscando superar a atuação considerada “cupulista” das direções sindicais que tomavam decisões importantes para seus representados sem ouvir as opiniões dos trabalhadores de base. Para contemplar as opiniões das bases em suas decisões, muitas assembléias foram realizadas em Osasco. Para garantir sua hegemonia no processo, tanto a FNT como o “Grupo de Esquerda” procuraram consolidar seus trabalhos nas principais empresas da base do sindicato. Mesmo tendo suas principais bases na Cobrasma, a FNT mantinha importantes lideranças em várias outras empresas. Já o “Grupo de Esquerda” organizava grupos de trabalhadores por empresa, que mantinham uma atuação permanente, contribuindo muito para manter a categoria mobilizada.
 
Outro princípio comum a todas as principais lideranças era a democracia. Por mais que o “Grupo de Esquerda” tivesse uma orientação estratégica definida, contemplando a luta armada para derrotar a ditadura, sua atuação em Osasco tinha a defesa dos interesses e reivindicações dos trabalhadores como fundamental, inclusive para conquistar o apoio e a participação dos mesmos nas lutas sociais e políticas gerais.
 
Numa intensa disputa nos anos de 66/68, o “Grupo de Esquerda” conquistou a hegemonia sobre o movimento, que até então era assegurada pela FNT. Essa hegemonia se estabeleceu não só no movimento operário-sindical, mas de forma clara no movimento estudantil secundarista, que era dirigido por “operários-estudantes”.
 
 
O MOVIMENTO ESTUDANTIL
 
A participação dos estudantes no movimento emancipacionista da cidade foi liderada pela União dos Estudantes de Osasco (UEO) que, juntamente com a União Nacional dos Estudantes (UNE) e demais entidades estudantis, foi dissolvida após o golpe militar de 1964. No final de 1965 os estudantes secundaristas constituíram o Círculo Estudantil Osasquense (CEO), que congregava os Grêmios dos Ginásios e Colégios do município. O presidente eleito foi José Campos Barreto, então trabalhador da Lonaflex e estudante do curso Clássico à noite. O vice-presidente era Roque Aparecido da Silva, trabalhador da Cobrasma e estudante do curso Ginasial. Essa hegemonia do “Grupo de Esquerda” em relação aos principais movimentos sociais da cidade era reconhecida no plano político municipal.
 
Nas eleições de 1966, mesmo com o chamamento da esquerda revolucionária para o voto nulo, o “Grupo de Esquerda” assumiu posição diferenciada nas esferas federal, estadual e municipal. Depois de muitas discussões, resolveu apoiar o voto nulo nas eleições federal e estadual. Porém, participou ativamente das eleições municipais, inclusive com candidatos próprios para vereador.
 
O candidato a prefeito pelo MDB era Guaçu Piteri, que tinha uma postura democrática. Nessas condições, para manter-se vinculado aos movimentos sociais da cidade, aceitou negociar com as lideranças o apoio do movimento estudantil e da “oposição sindical”. Dentre outros compromissos, caso fosse eleito, nomearia em seu gabinete um representante dos estudantes e um dos trabalhadores para fiscalizar a administração por dentro.
 
Com tal acordo, houve uma participação ativa de trabalhadores e estudantes no processo eleitoral local, elegendo dois vereadores e contribuindo para a eleição do prefeito, que respeitou os compromissos até abril de 1968, quando o Coronel Lepiani, comandante do 4º Regimento de Infantaria, em Osasco, exigiu a exoneração do representante dos estudantes, acusando-o de subversivo. Caso contrário haveria intervenção da ditadura militar no município. Com a exoneração, houve a ruptura do Movimento Estudantil com o Prefeito.
 
A intervenção do Coronel Lepiani ocorreu após manifestações de rua realizadas pelos estudantes secundaristas, organizados pelo CEO. Logo após o assassinato do estudante Edson Luiz, em 28 de março, no Rio de Janeiro, o CEO organizou uma primeira passeata estudantil em Osasco, mobilizando aproximadamente 5 mil estudantes. Nessa oportunidade houve um primeiro telefonema do coronel ao prefeito, exigindo a exoneração do estudante.
 
Dez dias depois houve uma nova manifestação, também organizada pelo CEO, em conjunto com a UNE e União Estadual dos Estudantes (UEE), na época presidida por José Dirceu, e com apoio das oposições sindicais. Foi uma grande manifestação, que mobilizou mais de 8 mil pessoas. Para se ter uma idéia do clima no protesto, basta dizer que ao mesmo tempo em que se denunciava a repressão, exigindo liberdades democráticas, denunciava-se também o imperialismo, solidarizando-se com o povo do Vietnã. Na cabeça da passeata estava a bandeira da Frente de Libertação Nacional (FLN), do Vietnã. Este foi o pingo d’água para o coronel exigir a exoneração do representante dos estudantes, que era Roque Aparecido da Silva.
 
 
A CONQUISTA DO SINDICATO
 
Foi no bojo desse processo que José Ibrahim, presidente da Comissão de Fábrica da Cobrasma, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco em setembro de 1967, consolidando a aliança com a FNT, que passou a ter maioria na diretoria do Sindicato, mesmo não tendo a presidência. Quando Ibrahim assume o Sindicato, quem o substitui na Presidência da Comissão da Cobrasma é José Groff, um dos principais líderes da FNT. Com a eleição da nova diretoria, o Sindicato passou a ter outra dinâmica, sendo o principal pólo de uma nova concepção de ação sindical, referência para as oposições sindicais e para muitos dirigentes de sindicatos.
 
Enquanto a FNT continuava desenvolvendo seu trabalho nas fábricas, o “Grupo de Esquerda”, com a participação de várias organizações de esquerda, como a Dissidência da POLOP que estava envolvida na organização da VPR, a própria POLOP, a Ação Popular (AP), a Ação Libertadora Nacional (ALN), etc., intensificou um trabalho de organização de grupos de operários por empresa, que passaram a ter um papel importante nas mobilizações do Sindicato e, em decorrência, em suas próprias decisões, muitas das quais, por falta de consenso na Diretoria, foram tomadas em reuniões ampliadas ou mesmo em assembléias.
 
 
O MOVIMENTO INTER-SINDICAL ANTI-ARROCHO
 
O ano de 1967 é marcado por uma grande ampliação dos questionamentos à ditadura, desde os mais tímidos, expressos por setores das próprias classes dominantes, até a contestação direta do povo nas ruas. As “oposições sindicais” ganham força, disputando eleições em vários locais, como em Osasco, onde foi vitoriosa. Ao mesmo tempo aumenta o descontentamento no meio dos trabalhadores que, entre 64 e 68 tiveram seus salários reduzidos em mais de 30% em decorrência do “arrocho” imposto pelo Governo.
 
Foi nesse contexto que mais de 40 dos principais Sindicatos do Estado de São Paulo reuniram-se em outubro de 1967 para discutir como lutar contra o “arrocho”. Nessa reunião decidiu-se criar o Movimento Inter-Sindical Anti-Arrocho (MIA), que programou a realização de cinco concentrações, até o dia 1º de Maio de 68. Seriam realizadas nos Sindicatos de Metalúrgicos de SP, Santo André, Osasco, Campinas e Guarulhos.
 
O Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, com posição clara de que a luta contra o “arrocho” só teria resultados se os trabalhadores fossem organizados a partir dos locais de trabalho, terminou representando a voz das “oposições sindicais” no interior do MIA. O Sindicato de Osasco, ao mesmo tempo em que era isolado pelas principais lideranças dentro do MIA, procurava aglutinar as “oposições”.
 
O MIA decidiu que nas concentrações só falariam dirigentes sindicais, não permitindo que falassem trabalhadores de base e estudantes. Na primeira reunião os conflitos se explicitaram. Inicialmente, os dirigentes do MIA não tinham previsto a fala do presidente do Sindicato de Osasco, que só discursou por exigência do plenário. Ibrahim colocou rapidamente a posição dos metalúrgicos de Osasco sobre a luta contra o “arrocho” e, desacatando a decisão do MIA, passou a palavra para um trabalhador da base. O fato fez alguns dirigentes do MIA protestarem. Ao mesmo tempo, o plenário passou a pedir que falasse um representando da UNE que, mesmo contra a vontade da mesa, terminou falando.
 
Em novembro houve a campanha salarial dos Metalúrgicos de São Paulo, Osasco e Guarulhos. Apoiados em dados do DIEESE, os Sindicatos reivindicavam 56,7%. Porém, o TRT julgou o dissídio, concedendo apenas 26%. Poucos dias depois, no início de dezembro, realizava-se a concentração do MIA no Sindicato de Santo André, onde se esperava uma resposta mais contundente a esse novo achatamento dos salários. Entretanto, a única resposta dos dirigentes foi de que deveriam continuar pressionando o Ministério do Trabalho. Depois de vários conflitos, os trabalhadores ligados às oposições sindicais abandonaram a concentração, saindo em passeata palas ruas da cidade.
 
A concentração seguinte foi em Osasco, em meados de fevereiro de 68, onde compareceram trabalhadores das oposições sindicais, vários grupos de estudantes e dirigentes sindicais. Além de Ibrahim, falaram representantes das oposições sindicais e um dos estudantes. Os dirigentes considerados “pelegos”, percebendo a situação desfavorável, decidiram não falar.
 
Nessa concentração foi lida e aprovada em plenário a “Carta de Princípios dos Trabalhadores”, onde se afirmava que a classe trabalhadora devia ser organizada a partir das empresas. Também era proposta a formação de uma Central Única dos Trabalhadores (CUT) que congregasse todas as forças na luta contra o “arrocho”. Em seu discurso, Ibrahim conclamou os trabalhadores a realizarem uma manifestação autêntica no 1º de maio, não participando das festinhas dos patrões, pois só os trabalhadores organizados seriam capazes de se impor à ditadura e derrubar o “arrocho”.
 
O discurso de Ibrahim foi considerado “subversivo” pelo Ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, pois conclamava os trabalhadores para a derrubada do governo. Além disso, Ibrahim havia “permitido a palavra às oposições sindicais e aos estudantes”. Passarinho ameaçou o Sindicato de Osasco com intervenção. A diretoria do sindicato foi chamada pelo Ministério, que apresentou as seguintes alternativas:
1) Destituição do Presidente pela Diretoria do Sindicato;
2) Destituição do Presidente pelo Ministério do Trabalho;
3) Intervenção geral no Sindicato.
 
Neste momento, a solidariedade entre os dirigentes foi parcialmente quebrada. Em reunião da diretoria do Sindicato, em 26 de dezembro, Ibrahim defendeu a posição de que se fosse cassado, toda a diretoria deveria renunciar. Não houve acordo e nem um posicionamento conclusivo sobre as alternativas apresentadas pelo Ministério. Visando ganhar tempo, o Sindicato pediu ao Ministério que apresentasse as alternativas por escrito. Frente às pressões do movimento sindical, da Igreja e de setores do MDB o Ministério recuou, fazendo apenas uma “advertência” ao presidente do Sindicato.
 
A concentração seguinte do MIA, que se realizou em Campinas, ainda sob o impacto dos desdobramentos de Osasco, foi bastante concorrida, tendo transcorrido com relativa tranqüilidade. A última concentração, realizada em Guarulhos, terminou sendo encerrada antes de terminar. Enquanto os dirigentes falavam, os trabalhadores das Oposições Sindicais vaiavam ensurdecedoramente. Logo após a palavra de Ibrahim o conflito se generalizou e o ato foi encerrado. O MIA foi dissolvido, tendo sido criada uma comissão para se ocupar da organização do 1º de Maio.
 
 
A GREVE DE CONTAGEM
 
As mobilizações contra a ditadura no início de 1968 continuavam em seu ritmo ascendente. A morte do estudante Edson Luiz, no dia 28 de março, foi mais um estopim, provocando explosões em várias capitais e grandes cidades do país. Nesse contexto, em 16 de abril tem início a greve dos metalúrgicos de Contagem onde, em meados de 67, tinha sido eleita uma chapa de oposição com propostas claras de luta contra o “arrocho” salarial e outras medidas arbitrárias do regime militar. A greve começou na Belgo Mineira, ocupada por seus trabalhadores, que elegeram uma comissão para representá-los nas negociações com os patrões. Reivindicavam 25% de aumento salarial e os patrões ofereceram 10%.
 
Essa contra-proposta foi rejeitada, o impasse se aprofundou e a greve continuou e foi se expandindo, atingindo 20 mil trabalhadores em poucos dias. Em um ato inesperado, o Ministro compareceu a uma assembléia dos grevistas para exigir a volta imediata ao trabalho, afirmando: “Se as condições se agravarem, vai haver luta e perderá quem tiver menos força, embora não queiramos fabricar e nem nos transformar em cadáveres”. Frente à grande repressão, aos poucos os trabalhadores foram voltando ao trabalho e a greve terminou com a conquista dos 10% de aumento nos salários. Às vésperas do 1º de Maio o General-Presidente Costa e Silva anunciou a extensão do abono salarial de 10% para todos os trabalhadores brasileiros, para que não só os metalúrgicos de Contagem recebessem o aumento, tentando descaracterizar a vitória da greve. Entretanto, o tiro saiu pela culatra, visto que os trabalhadores de todo o país perceberam que esse aumento tinha sido fruto da greve dos metalúrgicos mineiros.
 
Os setores combativos do movimento, em especial as oposições sindicais, procuraram demonstrar que era possível organizar lutas concretas contra o “arrocho” e conquistar vitórias. Em São Paulo, no auge dessa conjuntura, acontece a manifestação de 1º de Maio.
 
 
O 1º DE MAIO
 
Em abril de 1968 o mundo inteiro já estava em ebulição social, perpassando EUA, Europa, Ásia, África e América Latina. No Brasil o movimento estudantil vivia o seu auge, enfrentando a repressão nas ruas. O movimento operário e sindical, além de todas as manifestações do MIA, estava saboreando a vitória da greve de Contagem. Em Osasco vivia-se um clima de euforia pelos avanços alcançados e medo pelas medidas que poderiam ser tomadas pelo Ministério do Trabalho.
 
Foi nesse clima que se preparou a manifestação do 1º de Maio. Os dirigentes do MIA foram ao governador Abreu Sodré solicitar autorização para realizar o ato na Praça da Sé e o convidaram para participar junto com os trabalhadores. O governador autorizou e disse que “como primeiro trabalhador do Estado” estaria na concentração.
 
Esse fato provocou muitas discussões, particularmente no Sindicato de Osasco e entre as oposições sindicais. Houve inclusive uma proposta de se esvaziar o ato, realizando duas outras manifestações, uma em Osasco e outra em Santo André. Finalmente, chegou-se a um consenso entre alguns sindicatos e as oposições sindicais de que todos deveriam ir para a Praça da Sé, impedir a fala dos “pelegos”, do governador e realizar uma manifestação autêntica dos trabalhadores.
 
Além da mobilização intensa dos trabalhadores para o ato, os preparativos foram rigorosos e detalhados. No dia 1º de maio, às 8 horas da manhã, muitos grupos organizados já se encontravam na Sé. Alguns “armados” com “bolas de gude” para enfrentar eventual cavalaria. Outros com “barras de ferro” embrulhadas em jornal para eventuais choques com a polícia. Os grupos foram distribuídos nos pontos estratégicos da praça, como as proximidades das principais ruas de acesso, por onde poderia chegar a repressão. Um grupo grande ficou próximo ao palanque. Logo após o início da manifestação desencadeou-se uma grande agitação na praça e o palanque foi tomado pelos trabalhadores. O governador e os sindicalistas refugiaram-se na Catedral da Sé. Após a fala de alguns oradores, os participantes foram chamados para uma passeata até a Praça da República. Quando os manifestantes terminavam de se retirar da Sé, alguns trabalhadores incendiaram o palanque. No transcorrer da passeata a principal palavra de ordem dos manifestantes era: “Minas é o exemplo, greve contra o arrocho”.
 
No Coreto da Praça da República, que foi utilizado como palanque, falaram mais alguns oradores e a manifestação foi encerrada com as palavras do operário-estudante de Osasco, José Campos Barreto, que fez uma análise do ato. Barreto caracterizou aquela manifestação como uma grande vitória da luta dos trabalhadores, fazendo uma comparação entre a tomada do palanque na Praça da Sé e a tomada do poder político no país, que seria o objetivo maior dos trabalhadores. Disse que, apesar de ser uma grande vitória, a tomada do palanque era apenas um pequeno passo no caminho da tomada do poder, que exigia um longo processo de luta armada, como ensinava a experiência do povo cubano e, principalmente, a heróica luta do povo do Vietnã que estava derrotando o imperialismo americano. Esta foi a primeira vez que, em uma manifestação operária, se colocava abertamente a necessidade de seguir o caminho da luta armada para derrubar a ditadura. Com seu discurso inflamado, Barreto foi o orador mais aplaudido.
 
As repercussões dessa manifestação foram intensas em todo o país, principalmente em Osasco, onde as perdas salariais provocavam um grande descontentamento entre os trabalhadores e o nível de organização possibilitava a realização de uma greve.
 
 
A GREVE DA BARRETO KELLER
 
A Barreto Keller era uma indústria metalúrgica que empregava aproximadamente 150 trabalhadores, que lutavam por reivindicações específicas, como equiparações e reajuste salarial. Depois de mobilizações internas durante maio, os patrões aceitaram atender parcialmente as reivindicações. Entretanto, no dia do pagamento, em junho, os trabalhadores constataram que não havia aumento salarial. Imediatamente decidiram paralisar o trabalho, comunicando em seguida ao sindicato. Após sete dias de greve os patrões cederam, aumentando os salários em 15%, melhorando algumas condições de trabalho e reconhecendo a existência de uma Comissão de Empresa. Durante a paralisação houve intensa mobilização dos metalúrgicos de Osasco em solidariedade aos grevistas. Reuniões foram realizadas no Sindicato, nas quais a paralisação geral da categoria era discutida.
 
De fato, a realização de uma greve geral estava colocada para o conjunto das lideranças. Entretanto, a perspectiva era de que tal greve acontecesse em novembro, quando haveria a campanha salarial dos metalúrgicos de São Paulo e Guarulhos, juntamente com Osasco. Com isso, haveria mais tempo para a organização em Osasco e a greve poderia adquirir uma dimensão muito maior. A confluência de vários fatores, porém, terminou provocando a antecipação da greve para julho.
 
 
A GREVE DE JULHO
 
Efetivamente o período que antecede o dia 16 de julho, em que a greve foi deflagrada, é marcado por diversas características de convulsão social em Osasco, no Brasil e em boa parte do mundo. Em Osasco vivia-se numa maré crescente. As repercussões das concentrações do MIA, das manifestações dos estudantes que envolveram também os operários, a greve de Contagem, a manifestação do 1º de maio e a greve da Barreto Keller ferviam em um mesmo caldeirão. Muitos trabalhadores, assistindo aquele grande espetáculo mundial, começaram a cobrar a realização imediata da tão falada greve da categoria metalúrgica. Ao mesmo tempo, é importante lembrar que o Sindicato vivia sob ameaça de intervenção.
 
O fato de os principais líderes do “Grupo de Esquerda” estarem participando da criação da VPR também teve peso na antecipação da greve. Isto porque a análise de conjuntura que se fazia era de que a ditadura estava vivendo uma crise que se manifestava no plano político e econômico. A radicalização dos conflitos sociais deveria se desdobrar em um amplo processo de luta armada que, a exemplo de Cuba e do Vietnã, possibilitaria a conquista do poder pelas classes populares, sob a liderança de operários e camponeses, abrindo caminho para a construção do socialismo.
 
Sob a pressão de trabalhadores de base, dos companheiros da VPR e de outras organizações revolucionárias, cujas visões coincidiam com as dos principais líderes do “Grupo de Esquerda”, em junho decidiu-se que a greve seria em julho. Não foi uma decisão fácil, mesmo porque as principais lideranças da FNT consideravam que querer realizar uma greve em julho, naquela conjuntura, poderia trazer sérias conseqüências. Entretanto, as propostas do “Grupo de Esquerda” acabaram prevalecendo. Os líderes da FNT e os trabalhadores assumiram até as últimas conseqüências a realização da greve, com as características de radicalização que foram impressas pelo “Grupo de Esquerda”.
 
Pode-se dizer que a greve dos metalúrgicos de Osasco, iniciada na Cobrasma em 16 de julho de 68, teve três marcas significativas. A primeira é que, diferente da experiência histórica do sindicalismo brasileiro, a paralisação das fábricas que aderiram ao movimento se deu a partir de um trabalho interno. Em nenhum momento se lançou mão dos tradicionais “piquetes”. A segunda foram as características que assumiram a ocupação de duas das fábricas, mantidas sob controle dos trabalhadores até o momento em que foram desocupadas pela repressão. A terceira foi justamente a rapidez, amplitude e brutalidade da repressão. Após sete horas de ocupação a Lonaflex foi desocupada e a Cobrasma, em seguida, totalmente cercada por um impressionante aparato militar composto por carros blindados, cavalaria e centenas de soldados armados de fuzil e metralhadora.
 
A paralisação a partir do interior das fábricas deixa evidente que houve alguma coerência entre o discurso e a prática das lideranças locais, tanto da FNT como do “Grupo de Esquerda”. A organização dos trabalhadores pela base, a partir dos locais de trabalho, que teve como primeira experiência a constituição da “Comissão dos 11” na Cobrasma em 1962, norteou e unificou o discurso e a prática daquelas lideranças. Na época da greve, além da Comissão da Cobrasma, já consolidada após vários anos de existência, também eram reconhecidas pelos patrões as Comissões da Lona-Flex e da Barreto Keller.
 
Nas outras empresas, mesmo sem comissões formalmente constituídas, existiam trabalhadores do “Grupo de Esquerda”, da FNT e de outras organizações de esquerda que desenvolviam trabalhos em seus interiores, desempenhando um papel de liderança. Juntos, representavam um número significativo de trabalhadores. (Para uma visão sobre o desenrolar da greve, ver Roque Aparecido da Silva in: Rebeldes e Contestadores. Fundação Perceu Abramo, 2008, 2ª Edição).
 
As ocupações das fábricas foram detalhadamente planejadas. Todas as possibilidades e necessidades foram estudadas. Definiu-se uma estratégia para cada ocupação, com a organização de vários grupos de trabalhadores, cada um com funções bem definidas para o momento da paralisação e o período em que as fábricas ficariam ocupadas. Este planejamento permitiu que três dias antes da greve a liderança elaborasse um panfleto com considerações sobre como “tinha se dado” a paralisação das fábricas.
 
Não previstas pela liderança, a agilidade e brutalidade da repressão têm a ver com o acirramento da conjuntura política e como ela se manifestava no dia da greve.
 
A referência das lideranças era a greve de Contagem, onde fábricas ficaram ocupados por alguns dias, tendo sido desocupadas sem a intervenção brutal da polícia. Em meados de julho, entretanto, a conjuntura era outra. As contestações à ditadura tinham se ampliado, ao mesmo tempo que as ações armadas da esquerda tinham se intensificado. Isso levou os setores militares mais duros a exigir medidas de exceção, tornando mais rigorosa a ditadura. Tanto assim que, no mesmo horário em que se deflagrou a greve em Osasco, o Conselho de Segurança Nacional iniciou uma reunião para decretar ou não “estado de sítio” no país. Nesse contexto se deu a brutal ação repressiva.
 
Se é verdade que a ação foi terrível, também é impressionante a coragem com que os trabalhadores se comportaram. A Lona-Flex, que tinha sido ocupada às 14 horas, durante a troca de turno, quando havia o maior número de trabalhadores em seu interior, foi a primeira a ser desocupada pela polícia. Os trabalhadores conseguiram conversar, possibilitando que nenhum fosse preso. Já na desocupação da Cobrasma ocorreram muitos confrontos, sem que ninguém tenha baixado a cabeça. Mesmo os que foram presos enfrentaram o processo com dignidade.
 
Apesar da desocupação das duas fábricas na noite do dia 16 e da cidade ter amanhecido ocupada militarmente, os trabalhadores da Brown Boveri e da Braseixos, depois de terem entrado nas fábricas e iniciado a jornada, paralisaram o trabalho, aderindo ao movimento. Da Brown Boveri saiu uma passeata que foi até o Sindicato onde, em assembléia, foi decretada greve por prazo indeterminado. Os trabalhadores da Braseixos reuniram-se em igrejas, já que o sindicato não comportaria tanta gente. Ficava claro que nem mesmo a ocupação militar da cidade seria suficiente para amedrontar os trabalhadores.
 
A partir do terceiro dia, com a ocupação do sindicato e igrejas, além da vigilância sobre as fábricas e a prisão dos trabalhadores que tentassem se reunir, a repressão impediu a continuidade do movimento. A repressão patronal também foi grande, tendo demitido a maior parte dos líderes do movimento. Sem lideranças e sitiados, aos poucos os trabalhadores foram voltando ao trabalho.
 
 
CONCLUSÕES
 
As avaliações sobre essa greve, principalmente as feitas pelas lideranças e por outros sindicalistas, terminaram considerando principalmente as questões imediatas, não vislumbrando os aspectos teóricos e estratégicos para a emancipação dos trabalhadores, que estavam no centro do movimento. Nessas avaliações, são feitas duras críticas sobre as “derrotas” do movimento. Entre elas a demissão da maioria dos líderes, a intervenção no sindicato, a destruição das comissões e grupos de fábrica, prisões, torturas, mortes e exílio de vários líderes.
 
Frente a essas avaliações, as lideranças do “Grupo de Esquerda” ficam na defensiva. Sem irem além do plano em que as críticas foram feitas, admitiram os erros, procurando justificar porque foram cometidos: a liderança era muito jovem e inexperiente; fazia uma análise incorreta da conjuntura; foi influenciada pelas pressões das bases e pelos grupos de esquerda, particularmente a VPR.
 
Enfim, depois das prisões e torturas, alguns líderes do “Grupo de Esquerda” se encontram em Santiago do Chile, em 1972, e produziram uma análise da experiência. No texto, depois de reafirmarem princípios como os da organização independente dos trabalhadores, da organização pela base em Comissões de Fábrica, da liberdade e autonomia sindical, dão ênfase aos erros cometidos na conjuntura em que se realizou a greve de 68. Nessa “autocrítica”, as profundas divergências do “Grupo de Esquerda” com a FNT desaparecem ao considerarem que tinha sido precipitação realizar a greve em julho, que havia sido uma manifestação “esquerdista” a forma como tinham sido conduzidas as ocupações das fábricas, etc.
 
Apesar dos erros, até hoje aquela greve continua envolta por vários enigmas, apesar de muito ter sido escrito sobre ela, tanto na academia como em publicações sindicais e entrevistas de seus dirigentes. Se a greve tivesse sido uma grande derrota, não teria sido objeto de tantas reflexões e debates.
 
As experiências vividas pelos movimentos sociais, particularmente o operário e o sindical, em Osasco, nos anos 60, não podem ser apreciadas de forma adequada considerando apenas os aspectos imediatos. As questões centrais que nortearam aquele movimento dizem respeito às estratégias de organização e de ação sindical que, mesmo adquirindo conotações e pesos diferentes em cada conjuntura, estão presentes de forma permanente nas lutas operárias e sindicais.
 
Quando se atenta apenas para os ganhos e perdas, no plano imediato, não se consegue enxergar as questões de fundo colocadas ao conjunto do movimento sindical e aos movimentos que lutam pela emancipação dos trabalhadores e pela justiça social: Foi um processo em que se manifestaram os princípios de organização dos trabalhadores pela base, de democratização dos sindicatos, de liberdade e autonomia sindical, sem o que não é possível a mudança na relação de forças e a construção de uma nova hegemonia. Foi um ensaio de ruptura com as antigas formas de organização, ao manifestar uma atitude de independência em relação ao Estado e aos patrões, na medida em que foram construídas organizações de base com formas e conteúdos inovadores, negando as experiências do passado. O Sindicato rompeu com os limites legais impostos à sua atuação e cumpriu um papel político que, naquela conjuntura de Ditadura, era imprescindível para o avanço das lutas pela democracia.
 
Estas novas concepções, na experiência brasileira de organização e ação sindical, estiveram fortemente presentes dez anos depois, no ressurgir do movimento sindical no ABC, em Osasco e em todo o país. Analisando o processo de formação da CUT, podemos ver claramente que foram esses princípios que o orientaram. Da mesma forma, esses princípios estiveram também presentes na formação do PT e impulsionaram sua ação no plano sindical durante muitos anos.
 
É por tudo isso que, por maiores que tenham sido as críticas ao movimento de 1968 em Osasco, seus dirigentes se orgulham de ter vivido aquela experiência.
 
Roque Aparecido da Silva é mestre em Sociologia do Desenvolvimento pela Sorbonne e foi líder da Greve dos Metalúrgicos de 1968, em Osasco. Atualmente, é coordenador de Relações Internacionais da Prefeitura de Osasco.
Comentários
Adicionar novo
bruna  - CENEART 17:23:47 29-09-2008
bb desculpa nao ter pesquisado e arrumado pra vc esse trabalho mais o ze carlos ta enxendo o saco e eu to indo embora pra evtar confusao bjuss te amu me liga e desculpe se eu n ajudar mto mai saxo q aki nesta pagina contem bastante coisa do tema pelomenos foi a q mais explica
Escrever um comentário
Nome:
E-mail:
Website:
Título:
Por favor coloque o código anti-spam que você lê na imagem.
Não serão publicados comentários ofensivos