
Iriny Lopes
Empate. Para quem não sabe, foi uma forma pacífica que seringueiros acreanos criaram para enfrentar a truculência dos grandes fazendeiros. Homens, mulheres e crianças e velhos que dependiam da floresta para sobreviver davam as mãos e impediam que os empregados de pecuaristas derrubassem árvores para transformar imensas áreas em pastos. É uma forma única de luta, porque reafirma a possibilidade da paz, do diálogo e da conscientização em meio ao barulho ensurdecedor das moto-serras e correntões utilizados para destruir.
Os seringueiros e povos da floresta no Acre demonstraram na prática que é possível desenvolver a região sem devastá-la. Em Xapuri, onde Chico Mendes morava, há décadas os trabalhadores formaram uma cooperativa que exporta para a França e outros países a castanha do Pará e outros produtos.
Mesmo diante das ameaças e das mortes consumadas, esses trabalhadores não arredaram em nada seus princípios de manter a luta, tendo como arma principal a busca do convencimento, a conscientização da sociedade da importância de se preservar o meio ambiente. O empate tem esse significado de persistência na reafirmação dos direitos ambientais, culturais e econômicos que integram o que chamamos de Dhescas no enfrentamento de forças poderosas e violentas.
Marina Silva é a expressão e é constituída dessa sabedoria que criou o empate. Durante seis anos à frente do Ministério do Meio Ambiente, buscou o diálogo e transformou a agenda ambiental em política pública transversal. E fez isso com a dignidade que a sua própria história lhe confere. Marina, assim como seu companheiro de lutas Chico Mendes, soube defender e argumentar como poucos a importância do desenvolvimento sustentável e deu ao governo Lula a credibilidade nacional e internacional nesta área.
Evidentemente, enfrentou resistências internas, de setores com mentalidade atrasada, cujo discurso ficou travado na década de 70, quando a questão ambiental era colocada como entrave ao crescimento. Em todo o mundo, a preocupação com a devastação e seus efeitos, como as mudanças climáticas, tornou-se um pressuposto na discussão de qualquer projeto econômico. E Marina Silva colocou o País em pé de igualdade nas políticas socioambientais que pautam atualmente todas as nações.
Realizou muito, a despeito de todo bombardeio de que foi vítima: colocou em prática planos nacionais como o de Recursos Hídricos, de Combate à Desertificação, o Programa Nacional de Florestas e colaborou para a aprovação da Lei da Mata Atlântica.
Reestruturou o Ministério do Meio Ambiente, dando-lhe instrumentos e capacitando pessoal para implantação de projetos e na fiscalização, uma área muito complicada devido à relação promiscua de muitos servidores com madeireiros e representantes do agronegócio.
O cuidado com a Amazônia está expresso em várias ações. Lembro aqui um decreto de 2007, que cria instrumentos para combater o desmatamento ilegal e o convencimento do Conselho Monetário Nacional, que editou resolução vinculando o crédito agropecuário à comprovação da regularidade ambiental e fundiária.
As convicções da ministra Marina Silva, seu histórico de lutas, seja como seringueira, professora de História, vereadora, deputada estadual e senadora do PT, não foram abandonadas. E é isso que fez dela portadora de uma credibilidade junto aos movimentos ambientalistas e sociais nacionais, e que a projetou internacionalmente, assim como Chico Mendes, com quem fundou a CUT do Acre, em 1984.
Em 2007, Marina foi eleita uma das sete personalidades mundiais a receber o maior prêmio das Nações Unidas na área ambiental, o Champions of the Earth (Campeões da Terra).
A Marina que conhecemos, nascida num seringal, que aprendeu a ler na adolescência, se formou em História e lutou pelo direito a uma vida digna, com trabalho, cultura, desenvolvimento e consciência ambiental, que enfrentou a fúria dos pecuaristas no Acre e no Ministério do Meio Ambiente não perdeu a batalha. Neste empate em que diversas forças tentam se sobrepor pela violência, venceu a razão de quem sabe que as frentes de luta não se resumem a um cargo público. É um convencimento, uma sabedoria que nasce da terra e se espalha como semente, como foram Chico Mendes, tantos raimundos, marias e Marinas que um dia pararam tratores e moto-serras no coração do Acre. É dessa natureza e é essa a natureza de Marina Silva.
*Iriny Lopes é vice-presidente nacional do PT e integrante das comissões de Ciência e Tecnologia e de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados
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