| 05/04/2006 - Depoimento de João Paulo na sessão que foi votado Processo de Cassação, do qual foi absolvido |
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O SR. PRESIDENTE (Aldo Rebelo) - Concedo a palavra ao Sr. Deputado João Paulo Cunha pelo tempo de até 50 minutos.
O SR. JOÃO PAULO CUNHA (PT-SP. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Deputado Aldo Rebelo, companheiros da Mesa, Sras. e Srs. Deputados, público presente, minha família, meus amigos, meus companheiros, povo brasileiro que assiste a esta sessão, em momentos difíceis como este, que nos põem à prova como seres humanos, imediatamente vem à nossa cabeça o comum questionamento do porquê. Por que temos de passar por experiências como esta? Permita, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, inverter a lógica da pergunta. Pergunto: para quê? Essa pergunta vem a calhar, porque no fundo da minha alma resgato um pouco a resposta para minha pergunta: para quê? Descubro que é exatamente para que possamos aprender, para que possamos enfrentar esta provação e dela tirarmos lições e sairmos mais fortes, mais humildes, mais dispostos a continuar nossa jornada. Não tenho dúvida alguma de que a resposta ao para quê é para que eu possa, depois disso, ser outro homem, outro cidadão, outro companheiro, outro político. Essa a razão básica da pergunta inicial que me faço, a qual tento responder, com a permissão de V.Exas. E é com esse sentimento de honestidade, de confiança e de respeito que me dirijo a cada uma das Sras. Deputadas, a cada um dos Srs. Deputados, à minha família, aos meus amigos, aos meus companheiros e ao povo brasileiro, para prestar conta desse episódio, para tentar convencê-los de que a circunstância muitas vezes leva-nos a profundo questionamento. E há mudanças para as quais temos de estar abertos. O filósofo espanhol Ortega y Gasset cravou, no século passado, a máxima utilizada no mundo todo de que o homem é um eu e sua circunstância. E completou dizendo que a vida e a circunstância integram o próprio homem e que, portanto, viver é viver em alguma circunstância. E vejam os senhores em que circunstância eu me encontro hoje. Tenho 22 anos de mandato. A metade da minha vida, um pouco mais, eu me entreguei para esta ação - e me entreguei com prazer, não reclamo disso. Fui Vereador, Líder da bancada na minha cidade, Deputado Estadual, Líder da bancada no meu Estado, Deputado Federal, Líder da bancada nesta Câmara dos Deputados e me transformei Presidente da Câmara. Fui Presidente do meu partido no meu Estado, dirigente do meu partido no meu Município, dirigente no meu partido no Plano Nacional. Antes disso, pratiquei diversas atividades: fui dirigente do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da minha cidade, da Pastoral da Juventude, da Pastoral Operária e militei pela democratização do País. E, em todo esse tempo, Sr. Presidente, nunca precisei comparecer a canto nenhum para responder sobre os meus atos e minhas ações. Eu sempre tive, e tentei ter, comportamento condizente com aquilo que falo e com aquilo que pratico. Mas, a circunstância me impõe vir aqui no plenário desta Casa justificar e conversar com os Srs. Parlamentares, que é exatamente o meu interesse. Confesso aos nobres Deputados e às nobres Deputadas: é muito duro para mim. Eu sofro, sofri e sofrerei, eu e as pessoas que me conhecem. Confesso até a V.Exas. que eu pensei, no começo desta crise, em deixar o resto que remanesce do meu mandato e ir embora - não para tentar buscar no próximo pleito o retorno. Confesso que pensei em tentar reconstruir um novo caminho, repensar minha vida e buscar eventualmente atéoutra atividade, pensar em outra coisa, mas resisti. E resisti a partir de duas coisas simples que talvez nem interesse muito a V.Exas, mas que desejo partilhar. Há um retrato do meu pai, no meu escritório, em São Paulo. Abaixo do retrato há uma frase do Raul Seixas que diz assim: Se me faltar coragem para seguir viagem, a fé que me faltar eu vou buscar em você, meu pai. Meu pai foi um operário, trabalhou durante 25 anos como metalúrgico em Osasco. Ele me ensinou quatro coisas básicas: a honra, a moral, a honestidade e a solidariedade. E eu as pratico, como meu pai falou e me ensinou. Se não bastasse isso, a minha filha, no início da crise, perguntou-me: Mas, pai, por quê? A partir daquele instante, eu pensei: Eu não vou partir. Eu vou ficar, vou resistir e vou falar. Eu trago a V.Exas. duas coisas: em uma mão, a minha história; e, na outra mão, a verdade. Mesmo que na maioria das vezes a arte de marchetar dê a impressão de ser algo bonito. A arte de marchetar é a arte de cortar madeiras das mais diversas origens e colocar uma ao lado da outra, formando bonitas figuras geométricas. Com madeiras diferentes é uma bela arte. Muitas vezes as palavras são utilizadas com a arte do marcheteiro. A partir de uma palavra, forma-se uma frase; a partir dessa frase, forma-se um período e, a partir do período, forma-se um texto. Enfim, forma-se o que quiser com as palavras. Elas estão dispostas na prateleira para serem usadas do jeito que quisermos, mas decidi ficar e conversar com os senhores com essas duas coisas: com a minha história e com a verdade. Evidentemente, posso estar errado, mas os companheiros e companheiras que lutarem com a história e com a verdade serão bem recebidos e certamente serão absolvidos. Esse tipo de processo, Sr. Presidente, muito difícil e nos leva a lembrar importante frase: A política é quase tão incitante quanto a guerra e tão perigosa quanto ela. A diferença é que na guerra você morre somente uma vez, e a gente permanentemente está morrendo. Digo isso desta tribuna, perante cada um dos Deputados, para me desculpar. Peço desculpas ao Deputado Cezar Schirmer se o ofendi, há alguns dias, quando do encerramento do Conselho de Ética. Estender minhas desculpas aos seus companheiros, à sua família, aos seus amigos do Rio Grande do Sul, caso tenham se ofendido. Isso não é do meu feitio, não faz parte da minha vida. Isso não é do meu feitio, não é da minha vida. Então, peço desculpas e deixo registrado. Afinal, nós somos diferentes. Espero que S.Exa. receba minhas desculpas de bom coração. Consciência é a palavra chave que tenho utilizado neste período e que quero utilizar nesta reflexão com os senhores. Após a meditação, após meu silêncio, atitude que tomei de forma pensada e como opção, tenho que dizer que fiz o que era correto porque, muitas vezes, lutar contra o poder que está instalado por meio da mídia é coisa ingrata. Pode-se pensar que se pode contê-lo, mas não há, absolutamente, força capaz disso. A mídia acaba atropelando qualquer pessoa que se põe diante dela. Exatamente por isso fiz opção pelo silêncio, e hoje me sinto confortável, mais tranqüilo, em particular com minha consciência e com as pessoas com quem conversei. Tive a oportunidade de mandar aos Srs. Deputados, salvo engano, 3 correspondências. Para alguns Deputados, membros da Comissão de Constituição e Justiça e de Redação, para os Srs. Líderes, para os membros da Mesa, para nosso Procurador e para nosso Ouvidor, mandei o Voto em Separado, peça mais substanciosa, de quase 80 páginas, para que os companheiros pudessem lê-lo. Fiz isso seguro de que estava prestando um serviço à Casa; estava prestando um serviço aos Srs. Deputados para que, hoje, pudessem se posicionar com um pouco mais de tranqüilidade. A tranqüilidade do posicionamento se dá fundamentalmente na Ética. É na Ética, Sr. Presidente, que gostaria que pudéssemos buscar o gancho para o voto de hoje. Vejam bem, há quase 400 anos antes de Cristo, em Atenas, tivemos um grande filósofo, um marco na história da Filosofia, porque trouxe à luz a idéia de se compatibilizar a discussão ética com a política. Aristóteles conseguiu fazer isso de forma perfeita, de forma muito combinada, 400 anos antes de Cristo. Desse episódio de Atenas, Sr. Presidente, é importante considerarmos que, naquela época, já existia opinião pública - e quero que V.Exas. considerem como parêntese que havia opinião pública na época de Sócrates. A opinião pública de Atenas, à época, fez um julgamento sem direito à defesa e condenou Sócrates à morte. Os crimes cometidos por Sócrates foram dois: o primeiro, afrontar o Estado da época no questionamento aos seus deuses e, segundo, corromper a sua juventude. Então, V.Exas. podem perceber que a opinião pública nem sempre acerta. A opinião pública nem sempre tem o condão de dizer o que é certo e o que é errado. Muitas vezes ela toma uma posição que o tempo se encarrega de desmentir. Sócrates é tão marcante na história da humanidade que consideramos os pré-socráticos e os pós-socráticos para marcar definitivamente a sua passagem na História da humanidade. O desenvolvimento da Ética continuou em nossa História. Hoje nos deparamos com a exigência singular e imperiosa de qualquer cidadão que queira desenvolver uma atuação política na Ética. Mas a Ética não é algo circunstancial, que se adquira num dia e se perca no dia seguinte; não é algo que não se tem e, de repente, passa-se a ter; algo que se pratique somente no ramo de sua atividade. A Ética é algo que se incorpora em sua vida. Você é ético em sua família, com seus amigos e companheiros, em sua ação parlamentar, na relação com seus eleitores. Quero dizer com muita tranqüilidade que tenho atuado todos esses anos baseando-me essencialmente na Ética. Por isso, muitas vezes fico indagando de mim mesmo como posso ter caído nessa circunstância se essa é exatamente a razão de minha ação política de tantos anos. Sr. Presidente, considero esse aspecto importante, assim como a necessidade de responder aos pontos destacados no relatório do nobre Deputado Cezar Schirmer para o esclarecimento dos senhores. Confesso - e já disse isso no Conselho - que, quando vi o relatório do Deputado Cezar Schirmer, lembrei-me do Padre Vieira, que dizia que as coisas em excesso causam efeito contrário. O Padre Vieira dizia o seguinte: A dor, faz gritar; mas se é excessiva faz emudecer; a luz faz ver; mas se é excessiva cega; a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva mata. Com a permissão dos nobres Deputados, acho que o relatório foi demasiadamente forte para comigo. Passei alguns dias com uma figura pública que não corresponde efetivamente àminha vida. Falo isso com tristeza. Os Deputados, as Deputadas, as pessoas que me conhecem sabem que não sou essa figura apresentada naquele relatório. Não é verdade que tramo de maneira sorrateira medidas para prejudicar o povo. Não éverdade que ouso assinar qualquer medida que possa causar prejuízo ao Erário. Nada disso é verdade. Tenho opção de vida pelo oposto. Essa é a minha opção de vida. Veja, Sr. Presidente: em meados de 2003, os diretórios municipais da minha região me procuraram pedindo ajuda. É uma coisa estranha pré-candidatos a Prefeitos nos procurarem? Será que isso é uma coisa estranha? Acho que não. Fui procurado. O que fiz? Procurei o diretório nacional do partido. O que fez o diretório do meu partido? Como ele estava produzindo diagnóstico em várias cidades, o que se faz em todos os partidos, apontei as cidades que gostaria de ver analisadas na minha região. Então, o diretório nacional se dispôs a pagar as pesquisas que seriam aplicadas naqueles Municípios. Foi isso o que fiz. Na minha concepção, segui o caminho correto. Qual foi o caminho correto? Ir ao tesoureiro do meu partido, ao diretório nacional, e ele disponibilizou esses recursos. Hoje, e disse isso no Conselho, claro que penso que teria sido melhor providenciar um contato entre o diretório estadual e o diretório nacional e proceder a uma transferência direta para a conta, mas fazer engenharia de obras prontas é fácil. Ah, se pudéssemos consertar todos os nossos erros, se pudéssemos refazer os nossos caminhos em determinados períodos da nossa vida! Posso fazê-lo daqui para frente, mas não posso modificar o que já foi feito. Digo a V.Exas. que foi disponibilizado. Hoje também digo o seguinte: poderia não ter sido disponibilizado em Brasília, poderia ter sido em São Paulo. Lógico. Mas eu estava onde? Aqui, e dentro de um contexto absolutamente intenso. Mostrei aos nobres Conselheiros que, em 3 de setembro, acabara de ter sido realizada uma reunião, em meu gabinete, com Governadores, com Prefeitos de Capitais, com sindicalistas, porque estávamos discutindo duas reformas. O movimento na Casa estava muito intenso, havia muito trabalho, e eu a estava presidindo - e queria presidi-la bem, em particular, naquele período. Foi por isso que mandei a minha esposa. Agora, pergunto: isso agrava a minha situação, eu ter mandado a minha esposa? Se eu soubesse que havia algum traço, algum risco, alguma dúvida, ia mandar minha mulher? Então, eu passaria o constrangimento e muito mais a minha mulher, ao ponto de ela não conseguir comparecer hoje aqui? Então, com a permissão de V.Exa., eu acho que isso não é razoável. Ela foi e assinou o documento. Não era uma operação escondida. Ela assinou, porque o tesoureiro do partido tinha dito que teria de ir àquele lugar, naquele dia, naquela hora, buscar os recursos para pagar as pesquisas. As pesquisas foram feitas? Foram feitas. Foram pagas? Foram pagas. Foram entregues? Foram entregues. Qual é a relação que a gente estabelece entre a Direção Estadual, a Municipal e a Nacional? Disse à Direção Nacional: as pesquisas foram feitas, os resultados são positivos, estão aqui as pesquisas. Mostrei as pesquisas. Mostrei as pesquisas. As pesquisas têm nota fiscal. São notas fiscais expedidas pelo instituto. Srs. Deputados, levando ao extremo, para reflexão nossa, desconfia-se que as notas não foram emitidas na época. Permitam-me, Srs. Deputados, para refletirmos juntos: se as notas não foram emitidas na época, então a tese é que elas teriam sido emitidas agora. Se elas foram emitidas agora, por que foram emitidas 3? Por quê? Poderia ter emitido uma só. É porque efetivamente elas foram emitidas. Se o instituto recolheu os impostos somente após o início da crise, que culpa eu tenho? Que culpa eu tenho? Comprei o produto, o produto foi entregue, as notas fiscais foram apresentadas, foi pago. Vejam V.Exas. que do recurso recebido no início de setembro, ao final de setembro só ficaram 20% dos recursos, até o início de dezembro. Não foi todo o recurso que ficou. A contratação do serviço foi feita, o serviço foi prestado, a nota fiscal foi tirada e foi positivo para a região. Repito: foi positivo. Encaminhei, de fato, o ofício à CPMI. Vejam, Srs. Deputados, por que encaminhei à CPMI? Deixe-me esclarecer a V.Exas. Havia 3 pessoas no meu gabinete que tinham ido ao prédio do Brasília Shopping: o meu assessor, chamado Luís Carlos Gomes, a minha secretária e a minha esposa. Não seria razoável que prestasse contas de que eles foram ao prédio? Foi o que acabei fazendo. Fiz uma carta dizendo que eles tinham ido lá. Quanto ao período em que a minha secretária tinha ido, havia uma incorreção. O que fiz? Fiz outro ofício retificando, não é setembro, é abril. A minha secretária foi fazer o quê? Foi pagar a conta da TV a cabo. Seria uma tremenda fantasia ou uma tremenda coincidência da vida que tivesse uma fatura de uma empresa de TV a cabo de São Paulo, com vencimento no dia, com o banco da compensação sendo o Rural e com o valor diferente? Vejam V.Exas. que coincidência! Daí alguém pode falar: Não, mas, então, foi má sorte, João Paulo. Mas não se pode considerar a hipótese de ter, de fato, havido um erro, de ela ter recebido a informação? O banco de compensação era o Rural. O valor estava diferente. Efetivamente, a conta existia, existe e está à disposição de V.Exas. Foi o que efetivamente aconteceu. E vejam V.Exas. que informei no dia 10 de julho, no dia 10 de julho. No dia 19 de julho saiu a notícia do saque. Eu anexei ao meu processo. Eu fui o primeiro a dizer que houve o saque. O jornal Folha de S.Paulo estampou: João Paulo admite o saque. Eu admiti mesmo. Então, onde foi que neguei? Eu disse que minha mulher foi ver o problema da TV a cabo e que foi fazer um saque. Não menti. Eu disse exatamente o que aconteceu. E isso, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, é a absoluta realidade, é a absoluta verdade do que aconteceu. Se fosse para montar uma história, talvez montasse outra história. Na verdade, essa é a verdade. Essas são as verdades. Esse é o fato. Esses são os fatos, efetivamente. Depois, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, o contrato da Câmara. Às vezes, tratar tão mal e de forma bruta os números que quem está de longe tem a impressão de que, de fato, tem verdade nisso. Vejam bem, o contrato era de 10,7 milhões. Disse que 99% foram terceirizados. O que os nobres Deputados pensam? Nove milhões e tantos foram terceirizados. Só que dos 10 milhões, Deputado Aldo Rebelo, Presidente desta Casa, 7,3 milhões foram gastos com vinculação às revistas Veja, IstoÉ, Época, aos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil. Cento e cinqüenta e seis jornais do nosso País receberam recursos. Então, dos 10,7 milhões, 3 milhões foram para isso. Depois refizemos todo o cenário aqui, são quase 700 milhões. Os Deputados são prova disso, não precisa falar, é só ver o estúdio. Por que a agência precisou contratar marceneiro, encanador, eletricista, pintor? Porque em agência de publicidade não há esse tipo de profissional. O nosso estúdio foi refeito. Foi preciso contratar várias pessoas para refazê-lo. E, comprovadamente, companheiros, a audiência da TV Câmara aumentou, e muito. Só ver a nova grade que tem a TV Câmaraa partir do final de 2004, só reparar a qualidade e a quantidade. Isso é algo positivo. Se não bastasse, poderia citar para V.Exas. os livros que fizemos. Os Deputados de Goiás, de Brasília, de Minas, da Bahia sabem que fizemos o Gabinete de Arte, que tinha uma publicação bonita que ia para os Estados para ser distribuída. Fizemos o Estatuto do Torcedor, o Estatuto do Idoso, milhares e milhares. Vários Deputados levaram milhares para seus Estados. O contrato foi rigorosamente utilizado a bem da Câmara. A nossa Instituição ganhou com isso. Ganhou porque melhorou a sua imagem. Graças a Deus, ao final do meu mandato, a imagem da Câmara era boa. Sr. Presidente, fora isso, o questionamento do contrato. Sras. e Srs. Deputados, aqui vejo muitos ex-Prefeitos, ex-Governadores, ex-Secretários de Estado. Estou sendo acusado com um relatório preliminar. Quem pediu auditoria ao TCU fui eu, mais ninguém. Eu pedi. O tribunal está investigando. Ainda não fui notificado. A Câmara não foi notificada, nem o Sr. Sérgio Sampaio Contreiras nem o Dr. Márcio Araújo. Como posso responder por algo se não tive o direito de tomar conhecimento da acusação que me fazem? Como a Câmara responderá se sequer sabe do que está sendo acusada? V.Exas. sabem quanto tempo leva um processo no Tribunal de Contas da União, sabem como são feitas as licitações, a exigência feita por aquela instituição para que se apresentem justificativas. Não tenho receio algum nem do contrato nem do meu sigilo bancário, nem do meu sigilo fiscal, nem do meu sigilo telefônico. Sras. e Srs. Deputados, anexei ao Voto em Separado parte do meu sigilo telefônico para provar como era minha relação com o Sr. Marcos Valério. Eu o apresentei. E não tenho problema algum com a quebra dos meus sigilos, assim como tenho tranqüilidade para dizer que esse contrato foi bom e legal para a Câmara dos Deputados. Eu e a Câmara responderemos a todas as perguntas do Tribunal. Foi de fato positivo para a nossa Casa a questão do contrato que ora se questiona. E vejam, Srs. Deputados, o Diretor não foi nomeado por mim. Ele já estava no cargo e nele continua. E devo dizer, por ofício, que se trata de um excelente funcionário, tanto que já estava no cargo antes que eu fosse Presidente, passou pela minha gestão e continua no mesmo cargo. Srs. Deputados, a licitação assinada em 31 de dezembro de 2003 iniciou em maio - 2 grandes seminários na Casa, com assessores de vários Deputados e de Lideranças e funcionários de carreira da Casa. Fizemos pesquisa com mais de 100 Deputados de todos os Estados para buscar um pouco mais de informação para embasar o edital, que saiu em setembro e foi assinado em dezembro. Não há nenhum vínculo com as coisas com as quais tentam vincular - não há -, e digo isso com a tranqüilidade que V.Exas. conhecem. Independentemente disso, Srs. Deputados, V.Exas. sabem - e agradeço ao Relator, Deputado Cezar Schirmer, aos Deputados Carlos Sampaio, Edmar Moreira, Jairo Carneiro e vários integrantes do Conselho - que retiraram qualquer relação do meu mandato, minha relação, com o denominado mensalão. Mas, vejam V.Exas., continuarei sendo chamado pela imprensa de mensaleiro. Continuarei, pelo resto da vida, com esse carimbo, com essa marca. Precisamos fazer pequena reflexão sobre a imprensa. A imprensa pode muito, mas não pode tudo. A imprensa precisa entender como é a composição desta Casa. A imprensa precisa entender que a opinião pública não é a opinião dos jornais. Se descuidarmos e levarmos isso até as últimas conseqüências, daqui a uns dias, o povo não elege mais. Quem vai eleger é a opinião pública, os jornais. Mas e o povo? Respeito muito os Deputados que trabalham com a opinião pública. Mas temos Deputados que trabalham no seu Município, que têm relação diferenciada com o povo, com o seu eleitor. Nem por isso essa prática pode ser condenada - é desconhecer o Brasil - e ser vendida uma imagem como se o Parlamento do Brasil fosse de fato um problema grave. Não, não é o Brasil. O Parlamento na África do Sul, nos Estados Unidos, em Portugal, em grande parte do mundo tem sofrido os mesmos percalços que sofremos. Alguns anos atrás, o Parlamento da África do Sul tinha 7% de bom e ótimo. No Parlamento americano, quando quer protestar, o sujeito não vai votar, porque o voto é facultativo. Então, o questionamento sobre isso não é somente nosso. Por isso, não precisamos ficar sempre ajoelhados no milho. Precisamos responder, mas à sociedade brasileira, ao conjunto do povo. É o povo que precisa de resposta. Muitas vezes, o jornal levanta uma tese, sustenta essa tese e, depois, transforma essa tese, como se fosse a opinião pública, e, em seguida, pede no seu editorial o cumprimento dessa tese, que é dele. Será que o Brasil está muito diferente do restante dos países? Por que, na maioria dos países, não há instrumento para Deputado cassar Deputado? Por que, nos Estados Unidos, Bush perdeu o principal articulador do Parlamento, cassado por corrupção, sem voto de Deputado? Para os companheiros preocupados com a democracia, vale a reflexão. Levando ao extremo esse raciocínio - na situação hipotética de um Parlamento com 450 de um partido e 50 de outro -, quem garante que daqui a uns dias não se instalem, a partir dos 450, processos contra os outros 50, e os retirem do Parlamento? Por que não? Por que os países em que a democracia está consolidada há mais tempo não têm esse instrumento? Por que será? Porque há preocupação com a democracia. Mais do que isso, no nosso específico, companheiros, temos problema na estrutura do sistema. Vejam bem, se o Brasil continuar nesse caminho, ninguém vai conseguir governá-lo, porque se pressupõe uma relação de confronto, e não é uma relação da instituição. Pressupõe-se uma relação de confronto sem conhecer como se formam o Parlamento e os votos no nosso País. Precisamos buscar, a partir dessa crise, novo padrão no nosso sistema eleitoral, partidário. Hoje somos nós, mas amanhã poderá ser qualquer outro companheiro, porque o sistema vai ser mantido e ele é um risco permanente. Por isso, falamos tanto da tal reforma política, que alguma hora vamos precisar fazer. É verdade que a democracia corre no extremo e, a longo prazo, pode correr risco. É verdade que não há condições, dependendo do ambiente, de estruturar Maioria num Parlamento como o nosso, para o qual vêm representantes de 27 Estados da Federação, com composição absolutamente diferenciada, com partidos absolutamente diferenciados. Não há condições para isso. E o sistema eleitoral permite o risco permanente, que eventualmente pode não ser eu, mas qualquer companheiro. Por isso, precisamos buscar uma forma de superação. E vale, companheiros, uma reflexão. A imprensa brasileira do atual momento é diferente da de outros períodos. No Brasil Colônia, a imprensa era muito clara. Havia a imprensa pró-Portugal e a imprensa pró-independência. Na véspera da República, havia a imprensa favorável à República e a imprensa favorável à Monarquia; a imprensa favorável à Abolição e a favorável à manutenção do status quo. Recentemente, na década de 50, os jornais estampavam sua opção pelo Brigadeiro Eduardo Gomes, contra Getúlio Vargas. A imprensa era clara, tinha opção política. Hoje, o método é grave, porque se faz opção política pelo editorial e pelas matérias, mas não se assume. Faz-se opção por determinada política e não se mostra - é ruim isso -, diferentemente, insisto, de outros países em que a imprensa atua claramente: o editorial é de determinada linha, os temas são enfrentados em diversas linhas. Por isso, Sr. Presidente, precisamos retirar várias lições dessa crise. Falo do sistema eleitoral, do sistema partidário, do comportamento das CPMIs, que, por obrigação, tive de acompanhar. Estou vendo a crueldade das CPIs. Um cidadão ficar ali respondendo por 12, 15 horas não é problema de Direito, de legalidade - que deixo para os nossos companheiros - , mas de crueldade, de desumanidade, porque depois de 10 horas pode se responder qualquer coisa. Lembro-me da seguinte história de Eduardo Galeano: um advogado, na periferia de Montevidéu, encontrou uma senhora, presa por homicídio, chamada Alma de Agosto. Essa senhora, que era cega e pacífica, de repente estava presae condenada. O advogado foi buscar conhecer a razão de sua prisão e descobriu que ela descrevia os detalhes dos crimes contra as suas vítimas com frieza e crueldade de assassino. O advogado ficou espantado. Nossa! Uma senhora cega, de idade, bondosa, com esse instinto de crueldade, dizendo que matou tantas pessoas assim! Depois verificou que, a partir da tortura e da pressão psicológica, ela inventou aquelas histórias, que acabaram por condená-la. O advogado também ficou surpreso quando foi ao bairro onde ela morava. Perguntou aos vizinhos: E a D. Alma? E eles responderam: A D. Alma é culpada. Então o advogado perguntou: A D. Alma é culpada por quê? E o povo respondeu: Porque os jornais estão dizendo. Aí o advogado retrucou: Mas os jornais mentem! E os vizinhos disseram: Mas a TV e o rádio também estão dizendo isso! Essa história equivale a muitos momentos por que passamos. Por mais que se tente repetir, reproduzir e demonstrar, ficamos absolutamente impotentes diante do grande mecanismo da imprensa e das informações. Sras. e Srs. Deputados, colegas e assistentes, peço a minha absolvição, consciente do papel que cumpri durante todos esses anos, quer na Câmara dos Deputados, quer na minha vida pessoal, quer na minha história. E o faço com absoluta tranqüilidade e segurança. V.Exas. não absolverão uma pessoa do mal, que trama de forma sorrateira, um homem que não trata o dinheiro público como trata o da sua própria casa. Estarão absolvendo um homem que construiu sua estrada com sua própria luta. V.Exas. conhecem um pouco da minha história. Sabem que fui metalúrgico como meu pai e minha irmã; que dediquei a maior parte da minha vida à causa do povo brasileiro; que, por opção, não acumulei riqueza na minha vida em 22 anos de mandato. E podem ter segurança, se chegarem à cidade de Osasco e perguntar onde mora o João Paulo, as pessoas vão responder: na Vila São José. Esta é a minha segunda casa na cidade. Morei com os meus pais no Jardim das Flores. Casei e fui morar nesse bairro. O que tenho é suficiente para viver. Não quero ter mais nada, apenas minha honra resgatada. Diferente do meu amigo Deputado Roberto Brant, quero dizer que, de fato, a amargura e o deserto tocaram também a minha alma. Mas o deserto é um bom lugar para dialogar, refletir. Exatamente por isso Jesus Cristo, no momento mais difícil, optou por ficar no deserto. Eu fiquei e agora peço um voto de confiança para continuar lutando pelo povo brasileiro ao lado de V.Exas. A diferença é que agora eu conheço muito mais as senhoras e os senhores. Conheço muito mais o que é a vida. A pintora Tarsila do Amaral terminava suas cartas de amor ao seu amante Luis Martins, jornalista carioca, com uma frase em que dizia: Aí vai o meu coração. Para os companheiros que confiam e acreditam, para o povo que confia e que acredita, aqui vai o meu coração. Muito obrigado. (Palmas.)
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