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O bibliófilo José Mindlin, no seu primoroso Uma Vida entre Livros, confessa: “Quando, depois de anos e anos de procura, encontra-se um livro raro, o coração bate mais forte. Sente-se uma emoção grande, mas não se pode deixar que ela transpareça diante do livreiro. Por motivos óbvios...” Emoção desse gênero devem sentir os leitores, ao folhear este segundo volume do Catálogo de Obras Raras da Biblioteca da Câmara dos Deputados. Com o tomo, a instituição dá seguimento ao projeto de tornar públicos os títulos de cerca de quatro mil volumes, que, pela data da publicação ou por algum outro motivo, recebem dos especialistas a etiqueta de “raridades”.
À Câmara dos Deputados cumpre não apenas a elaboração de leis: compete-lhe, também, zelar pela cultura, defender o patrimônio histórico nacional, constituído, como se sabe, por bens materiais e imateriais. Daí a significação que tem, para nós, a Biblioteca Pedro Aleixo, uma das maiores e mais importantes do Brasil, com nada menos de 300 mil livros. Biblioteca que não se reduz a depósito de papel, dominado pelo cheiro de mofo e pelo apetite das traças, mas que funciona como transmissora da informação, difusora do conhecimento, multiplicadora do saber.
Este segundo volume do Catálogo de Obras Raras — o primeiro foi publicado em 2001 — é prova inconteste do que dizemos. O subtítulo, “Brasil por Escrito”, alude ao fato de que nele se encontram apenas obras diretamente relacionadas ao Brasil. Trata-se, pois, de riquíssima brasiliana, nome dado pelo bibliófilo Rubens Borba de Moraes aos conjuntos de livros sobre o Brasil, impressos entre 1504 — data do primeiro deles — e 1900. Somem-se, a eles, os livros escritos por brasileiros durante a fase colonial, que vai das primeiras manifestações literárias até 1808, ano em que, segundo o especialista que estamos a citar, chega ao fim o período colonial e se começa a imprimir regularmente entre nós. A coleção de livros apenas impressos no Brasil, o bibliófilo chama de brasiliense.
As obras que aqui damos a conhecer foram pacientemente descobertas pelo ex-deputado federal e jornalista Marcio Moreira Alves no decorrer de 30 anos, em livrarias e leilões em Portugal e na Espanha, França e Inglaterra. Agora pertencente à Câmara, o acervo é composto por livros que datam do século XVI até o início do século XX. Verdadeiras preciosidades, como os primeiros textos legais referentes ao Brasil: o mais antigo foi impresso em Lisboa, em 1569, “per Antonio Gonçalvez”, e intitula-se Leis Extravagantes / collegidas e relatadas pelo licenciado Duarte Nunez do Liam, per mandado do muito alto & muito poderoso Rei Dom Sebastiam, Nosso Senhor. Junte-se, a esse, o raro protesto de um eleitor da Bahia — publicado no Rio de Janeiro, pela Imprensa Nacional, em 1822 — contra o poeta e político Fagundes Varela, que vendeu o que tinha e mudou-se para Portugal quando eleito para as Cortes: Carta que ao illustre deputado em cortes o Senhor Luiz Nicolao Fagundes Varella, escreveo um zelloso patriota em 14 de dezembro de 1821. Entre as primeiras edições que, surpreendentemente, faltavam à Biblioteca da Câmara, acha-se a de Um Estadista do Império, Nabuco de Araújo: sua vida, suas opiniões, sua época, de Joaquim Nabuco, publicada no Rio de Janeiro, pela Garnier, em 1897, e considerada por muitos a mais importante biografia política da história do Brasil.
São autênticas jóias, que a Biblioteca da Câmara dos Deputados se orgulha de apresentar neste segundo volume do seu Catálogo de Obras Raras. Que os títulos da coleção “Brasil por escrito” proporcionem aos brasileiros conhecer, melhor e mais profundamente, a história da terra em que nasceram e do povo de que fazem parte. Desfrutemos, pois, a emoção e o prazer da leitura, uma das mais fascinantes e enriquecedoras experiências que pode ter o homem. Fazemos nossas as palavras de José Mindlin, quando certa vez declarou: “Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver”.
João Paulo Cunha (PT-SP)
Deputado Federal
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